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Lacto-Vegetarianismo

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         A tradição védica é lacto-vegetariana, pois tem como princípios fundamentais a adoração às vacas e a não-violência contra qualquer ser vivo. Mas também há outros dois motivos que podem levar uma pessoa a adotar o vegetarianismo: cuidar da própria saúde e cuidar da saúde do planeta. No entanto, a compaixão pelos demais seres vivos deve ser prioridade, pois mesmo que o consumo da carne fosse muito bom para a saúde humana e para o equilíbrio do planeta, não o seria para a vida dos animais abatidos. Isto significa que nossa principal preocupação deve ser o bem-estar do próximo e não o nosso próprio.

         Todos os dados estatísticos sobre o impacto negativo da produção e consumo de carne já estão publicados em inúmeros sites e sua busca é de muito fácil acesso. Portanto, não se faz necessário aqui apresentá-los, para não tornar este artigo longo demais. Aqui nos limitaremos a apresentar um ponto de vista pouco explorado, tanto pelo o público leigo, quanto por lacto-vegetarianos e veganos, que é o aspecto espiritual.

           Em sânscrito, o sinônimo de vegetariano é niramis, que significa 'sem carne', ou seja, a tradição védica considera o lacto-vegetarianismo como o modelo ideal de sociedade. Outro exemplo importante é o significado em sânscrito para a palavra carne, que é mamsa, cujo significado é 'aquele que eu como hoje, amanhã poderá me comer'. Com isto fica claro que a cadeia de ação e reação existente no consumo da carne de qualquer animal, já prevê que este animal terá o direito de se vingar de seu agressor, na próxima vida.

          Toda a estrutura da sociedade védica está baseada na relação de serviço entre as espécies, sendo o ser humano o principal articulador dessa rede, posto que é o único capaz de servir a Deus conscientemente. Isto quer dizer que é dever do ser humano auxiliar as demais espécies para que estas possam também ter a oportunidade de servir a Deus, e com isso permitir que suas almas possam ser beneficiadas, recebendo a oportunidade de nascerem como seres humanos um dia. Os Vedas explicam que Deus deve sempre estar no centro da sociedade como o objeto final da adoração de todas as entidades vivas. Isto significa que tudo deve ser oferecido a Ele na forma do serviço devocional amoroso, o qual só é possível de ser executado quando se tem um corpo humano.

       Sendo assim, não basta achar que ser lacto-vegetariano é tudo. É preciso conhecer o verdadeiro papel da alimentação em relação direta com o propósito da vida. Qual a finalidade de mantermos um corpo saudável e, consequentemente, qual a melhor maneira de utilizarmos nossa energia e saúde? No Srimad Bhagavatam está dito: “kamasya nendriya-pritir labho jiveta yavata jivasya tattva jijnasa nartho yas ceha karmabhih – Os desejos da vida humana nunca devem ser direcionados para a gratificação dos sentidos. Deve-se desejar somente uma vida saudável, ou a autopreservação. Uma vez que o nascimento humano destina-se exclusivamente à indagar sobre a Verdade Absoluta, nada mais deveria ser o objetivo de nossos esforços”. Obter um nascimento humano é muito raro e, portanto, devemos utilizar nossos sentidos e mente no serviço amoroso a Deus. Tudo o que foi criado, incluindo nossos sentidos, corpo e mente, pertencem a Deus e devem ser utilizados em Seu serviço, para Sua satisfação exclusiva.

              Mesmo que tenhamos acesso a um alimento puro, orgânico e livre de exploração, ainda assim existem impurezas mais sutis, como carma e pecados, que só poderão ser removidos quando o alimento for consagrado como uma oferenda a Deus. Quando cultivamos a terra, estamos inadvertidamente matando vários seres e, dessa maneira, incorremos em pecado. Além disto, o meio de produção deste alimento pode também ter envolvido exploração humana ou animal. Portanto, mesmo que Deus tenha recomendado que nos alimentemos de frutas, vegetais e leite, se não oferecermos estes alimentos a Ele, ainda assim estes trarão dentro de si uma cadeia de reação cármica que, definitivamente, causarão efeitos negativos em nós.

          No Gita 3.13-15, Krishna afirma: “Os devotos do Senhor são liberados de todos os tipos de pecados porque se alimentam somente daquilo que foi oferecido a Ele. Os outros, que preparam o alimento para o gozo do sentido pessoal, comem somente o pecado. Nos Vedas estão prescritas as atividades reguladas e os Vedas são diretamente manifestados pela Suprema Personalidade de Deus. Consequentemente, a transcendência que tudo permeia está eternamente situada no ato da oferenda do alimento”. Por este motivo, o alimento oferecido a Deus é chamado de anna-brahma, alimento transcendental, ou prasada, que significa a misericórdia de Deus na forma de alimento.

          O alimento que foi oferecido a Deus se torna completamente livre de qualquer contaminação material e devido a seu poder espiritual é capaz de nos libertar do ciclo de nascimentos e mortes. Portanto, qualquer alimento que venhamos a preparar, deverá ser oferecido a Deus antes de consumirmos. Não basta agradecermos pelo alimento. Devemos oferecê-lo a Deus, reconhecendo que Ele está no topo da cadeia alimentar, e deve ser o primeiro a comer. Tudo deve retornar à sua origem para fechar-se um ciclo. Nós não criamos nada. Tudo vêm de Deus e a Ele deve retornar. Desse modo, honrando este alimento oferecido a Deus, estaremos consumindo algo totalmente purificado, que nos ajudará a controlarmos os nossos sentidos e nossa mente.

            No Bhagavad-gita 9.27, Krishna diz para oferecermos ao Senhor tudo o que comemos, os nossos sacrifícios, os frutos do nosso trabalho e finalmente nossa própria vida e alma. Só assim poderemos desenvolver amor imaculado por Ele e alcançar Sua morada eterna.

No Bhagavad-gita 17.8-9-10, Krishna explica: “Os alimentos no modo da bondade (satvicos) aumentam a duração de vida, purificam a existência e dão força, saúde, felicidade e satisfação. Estes alimentos saborosos e nutritivos incluem grãos, laticínios, frutas e legumes”.

            Não basta apenas cuidarmos da saúde, preservarmos o meio-ambiente e protegermos os animais; tudo isto é apenas um complemento à vida humana, cujo verdadeiro significado é fazermos o que nenhum outro ser pode fazer: religião. Ou seja, amar, servir e adorar a Deus.

           Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança com a finalidade de permitir que a alma possa expressar sua natureza eterna, através do serviço devocional, ou Bhakti-yoga. E a expressão maior deste amor consubstancia-se no serviço a Deus. Esta é uma prerrogativa exclusiva do ser humano e de nenhuma outra espécie. Portanto, ser humano significa oferecer a Deus tudo aquilo que possuímos e aceitar Sua misericórida na forma de Seus remanentes. Isto é o que chamamos de prasada ou alimento divino.

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